Boas novas.
“Nossa alma canta”, lançado pela Guanabara Records, é um marco da música popular brasileira. Está de volta o quarteto Os Cariocas, o mais antigo e popular conjunto vocal brasileiro após algum tempo ausente dos estúdios, comandado por seu líder Severino Filho (voz, arranjos, regência e piano) coadjuvado pelos imprescendíveis Hernane Castro (voz e bateria), Neil Teixeira (voz e baixo) e Elói Vicente (voz e violão). Os Cariocas também detêm um recorde mundial: é o conjunto vocal mais antiga em atividade em todo o mundo.
Conhecendo e admirando Os Cariocas desde quando encantou e conquistou o público com sua magistral gravação de “Nova Ilusão”, nos anos 40, que também foi um divisor de águas da MPB vocal, tenho a certeza que este magnífico lançamento atesta, sem qualquer sombra de dúvida, que o glorioso quarteto sustenta sua marca registrada conservando a mesma integração, as harmonizações arrojadas e surpreendentes, a entonação inimitável, a perfeita afinação, sua unidade e a categoria ostentada em sua longa e vitoriosa trajetória.*

*A seleção do refinado e belíssimo repertório, as impecáveis interpretações, os magníficos arranjos de Severino Filho e as presenças de ilustres convidados contribuem para abrilhantar as interpretações.*
*“Rio Que Corre” (João Donato, Lysias Enio e Beth Carvalho), valorizado pelo arranjo impecável de Severino Filho, conta com o piano inconfundível de Donato, no qual o quarteto exibe sua patriarcal marca registrada através de harmonizações e entonação característica, gerando um balanço contínuo.*
*“Quero Você” (do pranteado Newton Mendoça, um ícone da MPB injustamente esquecido), uma belíssima melodia que tem tudo para ser um clássico, é iniciada por um introspectivo uníssono do conjunto valorizado pela bela intervenção de Alberto Chimelli ( piano) complementado pelo acompanhamento de uma seção de cordas.
“Clube da Esquina 2” (Milton Nascimento, Lô Borges e Marcio Borges), uma nostálgica referência ao conhecido movimento dos músicos mineiros nos anos 70, é iniciada com o quarteto cantando sua letra numa atmosfera etérea, valorizada pelo vocalize de Milton Nascimento e o acompanhamento de Kiko Continentino (piano) adequando-se integralmente ao clima da canção. *
*“Samba do Carioca” (Carlos Lyra & Vinicius de Moraes) balança desde o início com o pianista Fernando Merlino estabelecendo sua atmosfera de samba autêntico com um solo articulado repleto de suingue e contando com a participação vocal especial de Badeco, um dos fundadores do conjunto. Aqui o quarteto tem uma das suas mais entusiásticas e descontraídas performances e o uníssono final é um verdadeiro achado.*
* Em “Você Vai Ver” (Tom Jobim) o conjunto oferece uma das suas irrepreensíveis e clássicas harmonizações vocais que sempre fez parte do seu estilo inconfundível, uma lição de unidade, interação e absoluta integração. *
*O clássico “Baiãozinho”, de Eumir Deodato, que participa nos teclados, é recriado com toda alegria e balanço, abrilhantado pelo luxuoso quarteto de flautas formado por Carlos Malta, Leo Gandelman, Mauro Senise e Marcelo Martins num background orquestral.*
*“Você”, clássico de Roberto Menescal, que aqui tem um solo de guitarra, e Ronaldo Boscoli, é recriado com brilhantismo e entusiasmo. Com Severino Filho (piano), o grupo é reforçado pela voz de Hortênsia, irmã do maestro e líder, que integrou a primeira formação dos Cariocas, e aqui o quarteto é transformado em quinteto. *
* “Intro Jet Samba” (Severino Filho), uma vinheta preparatória para a faixa seguinte, apresenta excluivamente as vozes dos seus integrantes em outra soberba demonstração de unidade e disciplina.*
*Segue-se “Jet Samba” (de Marcos Valle, que toca teclados, com o música fluindo repleta de passagens em que a vocalização do quarteto proporciona variações melódicas instigantes. *
* A romântica “Futuros Amantes”, de Chico Buarque, conta com Gilson Peranzzetta (acordeão) em que o bom gosto da interpretação do quarteto resulta na sublimação da melodia. *
* “Estrada do Sol”, clássico de Tom Jobim e Dolores Duran, no qual Severino Filho, ao piano, acompanha o vocal do conjunto com acordes sugestivos e provocantes. Após reouvir esta faixa várias vezes, concluí que esta é a versão definitiva deste clássico da MPB.*
*“E Nada Mais” (de Durval Ferreira e Lula Freire), além da parte vocal, oferece solos de Elói Vicente (violão) e Severino (piano), cujo arranjo destaca-se pelo bom gosto e criatividade. *
*“Coisas de Mulher” (Chico Buarque e Baiano) é outro samba autêntico valorizado pelas vozes do quarteto e realçado por uma passagem esfuziante de Carlos Malta e Marcelo Martins nas flautas, em uníssono. *
* O clássico “Rapaz de Bem”, de Johnny Alf, o pai espiritual da bossa nova, foi um divisor de águas que despertou a atenção para a genialidade do seu autor, uma música sob medida para Os Cariocas, cujo arranjo excepcional de Severino fez justiça a um dos maiores talentos de todos os tempos da MPB. Na banda atuam alguns dos maiores instrumentistas do nosso país: Aurino Ferreira (sax-barítono), Carlos Malta (sax-tenor/flauta), Vittor Santos e Gilberto da Conceição (trombones), Jessé Sadoc (trompete/ flugelhorn), Mauro Senise e Leo Gandelman (saxes-alto/flauta), Marcelo Martins (sax-tenor/flauta), Widor Santiago (sax-tenor). *
*“Delírio Carioca”, uma pérola de Guinga e Aldir Blanc, marca a despedida de Os Cariocas numa singela interpretação à capella que reafirma, se ainda fosse necessário, a ciatividade, justeza, unidade,e integração do nosso maior conjunto vocal de todos os tempos.*
José Domingos Raffaelli
*Os Cariocas voltaram e a música popular brasileira agradece. Aleluia!*
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